
24/04 - 23:37
Marco Tomazzoni
De costas para o Vale do Anhangabaú, em uma das sacadas do segundo andar do Teatro Municipal de São Paulo e ao ar livre, os Mutantes deram início na noite de hoje a uma nova fase. Ao som de “Mutantes Depois”, que encerrou um pocket show para jornalistas e convidados, Sérgio Dias e seus companheiros disseram ao mundo que estão de volta, vivos como nunca, com uma música inédita e um álbum em parceria com Tom Zé a caminho.
Ouça a nova música dos Mutantes no MusiGAssista ao pocket-show no Teatro Municipal
Vestidos de preto, os atuais oito integrantes da banda tocaram três canções – “Uma Pessoa Só”, “Technicolor”, “Baby” – dos álbuns anteriores, o último deles, Tudo Foi Feito Pelo Sol, lançado no longínquo ano de 1974. O público curioso que acompanhava a apresentação nas calçadas da Praça Ramos talvez não soubesse, mas o momento pode ser considerado histórico, já que foi a primeira vez que o grupo se apresentou sem Arnaldo Baptista e Zélia Duncan, também protagonistas da ressurreição realizada em 2006, no centro cultural Barbican, em Londres.
Disponível para download gratuito no iG, “Mutantes Depois” é considerada um presente para os fãs. “É um barato poder fazer isso de curtição, para vocês serem felizes”, afirmou Sérgio, com um fantoche de corvo a tiracolo, durante coletiva de imprensa no imponente Salão Nobre do Municipal. “Somos gratos a todos os jovens que nos acolheram no mundo inteiro. ‘Mutantes depois’ é o legado para vocês continuarem.”
Gravada com a participação do cantor norte-americano Devendra Banhart, que auxilia no coro, a música serve como aperitivo para um novo disco de estúdio, previsto com otimismo para o final de junho. “É fruto do tempo que a gente ficou nos nossos casulos, preparando as coisas que prometemos há dois anos”, disse o guitarrista.
Único remanescente da formação original, ao lado do baterista Dinho Leme, Sérgio revelou que, antes de finalizada, “Mutantes Depois” teve a aprovação do brasileiro Eumir Deodato, “um dos melhores produtores do mundo”, em sua opinião. Além disso, surpreendeu ao revelar que convidou Rita Lee para compor com ele a canção.
“Escrevi a ela perguntando se não queria fazer a letra, mas não obtive resposta. Talvez tenha sido melhor, porque é uma tomada de posição nossa, de um dia passar a tocha para vocês.” Sérgio também pareceu não guardar nenhuma mágoa da antiga companheira e cunhada, nem com o fato de ela ter desprezado o convite para o retorno do Mutantes. “Amo Rita do fundo do meu coração. É minha irmã, não importa o que tenha acontecido. Ela seguiu uma vida diferente da nossa, mas um caminho brilhante, maravilhoso.”
Metamorfose em curso
O novo Mutantes é basicamente o mesmo que gravou o CD e DVD ao vivo no Barbican e viajou o mundo, com maior destaque para o casal de backing vocals Beatriz e Fábio, realocados para a linha de frente. A saída de Zélia Duncan foi tratada com tranqüilidade e objetividade. “Zélia passou”, disse Dinho, manifestando-se pela primeira vez. “Teve uma participação muito ativa e importante, mas tem sua carreira solo para cuidar.” Quanto ao irmão, Sérgio foi mais reticente, deixando nas entrelinhas a responsabilidade da esposa de Arnaldo, Lucinha, na licença.
“Arnaldo é meu irmão querido, assim como Rita. Ele cresceu muito nessa última turnê, redescobrindo a música, tocando em grupo. Mas quando a gente faz 50 anos, pode fazer o que quiser. Quem sou eu para exigir que meu irmão mais velho continue? Seria um egoísmo muito grande da minha parte.”
Apesar disso, o vocalista deixou em aberto uma futura participação tanto de Arnaldo quanto de Rita, apostando no poder de renovação da banda. "Se quiserem vir, estamos de portas abertas. Nada é impossível quando a gente crê. E nós somos mutantes, não somos humanos", brincou.
A necessidade de criar material inédito, garantem, foi o que moveu o grupo para a frente. "Caso contrário, a gente não teria vida, razão de existir", argumentou Sérgio, rebatendo qualquer crítica quanto à idade sustentando que ele e Dinho só são "jovens há mais tempo". A bússola da banda, que espantou o país há 40 anos com seu álbum de estréia, unindo guitarras, MPB e avant-garde, continua apontando para o experimentalismo. "Tivemos o privilégio de viver a época dos Beatles, da Tropicália, e essa base vai continuar", frisou Dinho. Segundo ele, as novas músicas nunca terminam do jeito que começaram, sempre em busca de uma mudança de compasso, harmonia ou, como Sérgio sustentou, de uma sonoridade que emocione.
Nesse sentido, foi fundamental a parceria com Tom Zé. O baiano de Irará, também presente no Municipal, reatou a cumplicidade com Sérgio Dias ao participar do primeiro show do retorno dos Mutantes no Brasil, no aniversário de São Paulo, no início do ano passado. "Antes eu não sabia falar com Tom. Ele era um gênio, e eu só falava de guitarra", disse Sérgio, se referindo a seus primeiros contatos com o compositor, quando era um prodígio com menos de 20 anos.
A partir da conversa na capital paulista, os dois começaram a "trocar figurinhas" e a relação evoluiu sem parar, resultando em uma série de músicas novas. "Ele é o parceiro que pedi a Deus. É uma coisa incrível, uma energia que nunca senti na vida. É divino poder trablhar com essas pessoas maravilhosas que viveram o mesmo que a gente." Sérgio não adiantou detalhes sobre o álbum, mas falou sobre uma dass faixas em parceria com Tom Zé. "Eu fiz a letra, vejam só, e ele apareceu com uma música inacreditável, que logo, logo vocês vão conhecer." Agora é assistir ao show na madrugada do próximo domingo, durante a Virada Cultural de Sáo Paulo, e esperar até junho, para, enfim, ver a metamorfose do Mutantes se completar.
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